Crônica #123 | Viajante das entrelinhas.
- Redação neonews
- 25 de mar.
- 9 min de leitura
Parte 1: A bicicleta como caminho.

O que você encontrará nesta crônica:
"Será que toda a inquietação está no tempo que nos falta ou na maneira como habitamos esse tempo? O ano de 2025 mal começou, e já sentimos o tempo escapar por entre os dias, deixando a nítida sensação de que nada conseguimos fazer. O coração acelerado, a mente afogada em medos que alimentam inúmeras formas de ansiedade. Um desconforto que, mesmo sendo evitado, se mostra inevitável. Viver o agora é o que realmente nos resta, mas a mente segue presa ao amanhã, sufocada pela ansiedade que nos governa. A ansiedade é um alerta ou uma prisão? Ou aceitamos sua presença ou aprendemos a compreendê-la."

I. Pedalando sob o sol.
Os olhos dele se arregalaram. Por um instante, achei que meu amigo fosse se engasgar com o sorvete que saboreava. O olhar de espanto, misturado à hesitação, tomou conta do seu rosto. Quase sem fôlego, ele me perguntou:
- “Você vai mesmo viajar de bicicleta daqui do centro, ao norte do Japão? Que maluquice é essa?”
Um plano ousado tinha tomado forma, e resolvi, então, durante minhas férias de verão, conhecer parte do Japão de bicicleta. Partindo da província de Gunma, no coração da ilha, traçaria minha rota rumo ao norte, percorrendo a costa oeste até a ilha de Hokkaido. No retorno, seguiria pela costa leste, fechando um circuito de 1.200 quilômetros em plena temporada de verão.
Tal qual um vento inesperado que altera o caminho de um viajante, essa ideia se instalou em meu coração. Estava na minha juventude, época em que havia conquistado uma bolsa de estudos para a pós-graduação em engenharia. Esse novo capítulo me oferecia a oportunidade de ampliar meus conhecimentos profissionais e me lançaria em uma realidade de experiências totalmente diferentes da que conhecia aqui no Brasil. O Japão se revelava além de apenas um espaço de aprendizado técnico; ele era uma porta que se abria, introduzindo um novo olhar sobre a vida.
Viagem é uma palavra que se reveste de diferentes sentidos. Geralmente, na primeira hipótese, pensamos em um deslocamento físico, envolvendo planejamento, preparação e decisão. Então traçamos rotas, consultamos mapas e definimos destinos. Mas a experiência me ensinou que, por inúmeras razões, nem sempre funciona desse jeito. Às vezes, a verdadeira viagem acontece no inesperado, naquilo que escapa ao controle e se desdobra no imprevisto.
- “Tenho três meses para me preparar física, mental e espiritualmente. Todos os finais de semana subirei ao “Akagiyama” (Monte Akagi)”, respondi ao meu amigo.
O Monte Akagi seria um grande desafio físico, com suas trilhas íngremes que atravessam suas densas florestas. Sua majestosa silhueta, onde a paisagem se desenha em camadas de muito verde sobre a rocha, conduziria também a uma imersão em sua quietude. O teste de resistência se daria nos caminhos tortuosos, inseridos no silêncio profundo, que exigiria de mim uma conexão mais intensa com meu corpo e minha mente. Era como se pudesse sentir a força da montanha, que, como um antigo guardião, ensinaria paciência e resiliência, qualidades indispensáveis para a jornada que eu havia me proposto a realizar.
E, diante da minha plena convicção, dois amigos se propuseram com determinação: “Então, vamos fazer companhia no seu treinamento!” O plano, antes solitário, ganhou novos companheiros.
De posse de uma bicicleta adequada, iniciamos o treinamento.
Saíamos todos os sábados, às cinco horas da manhã, com o sol se anunciando no horizonte e clareando nosso caminho. Levávamos “obênto” (refeição tradicional japonesa, normalmente composta por bolinhos de arroz e acompanhamentos) e energéticos. A vontade crescente de testar nossos limites permanecia e ia além do cansaço. Sem perceber, nos fazia atravessar fronteiras que não eram apenas geográficas, e o tempo se dilatava no percurso. Ao cruzarmos as vilas, meus companheiros narravam suas histórias. A sensação que brotava era de que as estradas guardavam reflexos de um passado distante. Esse passado ainda sussurrava em meio aos campos cultivados e às suas casas antigas. Ao parar nos “oterás” (templos), me explicavam o significado das batidas dos sinos – uma forma de conexão entre o terreno e o divino presente em cada ressoar de seu som. Algo como um chamado à consciência do instante presente, dentro do instante eterno, parecia penetrar fortemente através daquele som tão peculiar.
As fontes de água eram constantes e frescas, verdadeiras grandes bençãos pelo caminho. Nos faziam lembrar que a natureza tem seu próprio jeito de nos renovar. Os agricultores nos acenavam, e eu me perguntava quantos viajantes, antes de nós, teriam também recebido aqueles mesmos gestos silenciosos. Que sensação agradável de puro acolhimento!
Lembranças de momentos singelos e de rara simplicidade ficaram impressas em minha alma. Entre risos e conversas, saboreamos as tradicionais “nashis” (peras japonesas) da região. Naquele instante, o mundo simplesmente se reduziu ao contraste entre o sabor doce e suculento da fruta e o calor intenso daquele verão. Aquele simples ato de provar uma fruta deliciosa por excelência parecia, em si, uma forma de presença absoluta. Algumas viagens não se medem em quilômetros percorridos, mas na intensidade dos momentos vividos.
A percepção aguçada do que antes parecia banal, do inesperado que se infiltra pelo caminho, tem o poder de nos transformar. E então, a proposta da minha jornada solitária de bicicleta se tornava cada vez mais esperada. Ela deixava de ser apenas um desafio físico ou uma aventura planejada. Tornava-se uma travessia tão interna quanto externa, podendo, talvez, vir a ser um rito silencioso de descobertas.
Comecei a enxergar as pedaladas como um processo de me perder e me encontrar comigo mesmo, dentro das quietudes do meu ser. Assim, cada parada e cada paisagem poderia agora ser um espaço de introspecção e autoconhecimento, e não mais apenas um trajeto a ser cumprido.
O calor era intenso, típico do verão japonês, mas, à medida que subíamos, o ar gradualmente ficava mais agradável. No topo da belíssima montanha, meus amigos me ajudaram a planejar a rota para o norte, sugerindo os melhores pontos para visitar: as vilas acolhedoras, os templos com seu silêncio, os bosques perfumados, os “onsens” – banhos termais fumegantes que prometiam descanso após as longas pedaladas. Assim, as indicações de suas experiências foram moldando minha jornada, além da geografia necessária.
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Il. Viajantes das entrelinhas.
Quando enfim, chegou o dia da partida, eles foram até a saída da cidade comigo. Disseram:
- “Kiotsukete!” (tome cuidado), “que seu caminho seja abençoado pela força divina.” Havia nos olhos deles uma mistura de despedida e o desejo de que eu levasse um pouco daquela amizade comigo. Agradeci e prometi enviar cartões postais dos lugares por onde passasse.
Parti na direção oeste e, pela primeira vez, após meses de preparação, senti o peso real da travessia. A companhia dos dois amigos, que fielmente me acompanharam durante todo o meu treinamento, se dissolvia. Eles permaneciam vivos em minha mente, na silenciosa torcida por mim nesta aventura. Tinha comigo apenas a sombra de mim mesmo, alongada no chão, projetada pela luz nascente na imensidão da estrada que se abria à minha frente. No fundo, pesava a sensação de estar só, mas jamais verdadeiramente sozinho. Afinal, havia algo que seguia comigo além do visível, um vínculo que não se desfazia na despedida.
Só agora me dou conta de que algo despertou dentro de mim, ao me deparar com a revelação contida na expressão “amigos viajantes das entrelinhas”, em uma carta carregada de lembranças e afeto. Foi como se essas palavras tivessem vida própria, revelando um significado que ultrapassava o óbvio. Há pessoas com quem apenas dividimos rotas, mapas e destinos traçados, percorrendo estradas visíveis. Mas existem outras, as viajantes das entrelinhas, que seguem conosco, presentes ou distantes, por caminhos silenciosos, deixando sua marca em gestos, pausas e olhares carregados de significado.
Os viajantes das entrelinhas, seres em constante busca de sentidos, não se contentam com a superfície das palavras. Eles leem e interpretam o que está implícito nas palavras, nos sentimentos e nas entrelinhas das situações. Desvendam as sutilezas do que não é falado, transitam por sentidos que estão ocultos e captam nuances invisíveis que escapam ao olhar apressado.
Uma trajetória de descobertas e entendimentos mais profundos, na exploração das complexidades da vida, da arte e das emoções que só se revelam àqueles que ouvem além das palavras. Conexões assim criadas não se desfazem com a distância. Há caminhos que se percorre com os pés e outros que se desdobram na alma.
Eles foram os primeiros amigos a habitar essas entrelinhas. Mesmo distantes, permanecem presentes nos silêncios e nas vibrações sutis que a estrada nos traz.
Se o tempo e a distância não podem apagar o que foi plantado nas entrelinhas, o que mais podemos aprender sobre a verdadeira essência da amizade e da conexão humana? Você tem alguém assim em sua vida, cuja presença transcende o tempo e a distância? Qual o valor que você está atribuindo a essa conexão que vai além do visível?

lll. O conflito na solidão.
As primeiras horas pareciam um passeio. O terreno era plano, e o clima, ainda com uma brisa agradável, dava a sensação de que a jornada seria apenas uma extensão natural dos treinos.
À medida que as construções iam ficando para trás, as montanhas cresciam à minha frente. Eram as cordilheiras da costa oeste do Japão, montanhas imponentes a transpor. Conforme elas iam surgindo à minha frente, pareciam sentinelas silenciosas, aguardando para testar minha determinação.
Então vieram os primeiros conflitos, não com a estrada, mas dentro de mim. "Fiz a escolha certa ao embarcar nessa jornada? Meu treinamento foi suficiente?" A dúvida parecia gritar, tentando se infiltrar entre as batidas compassadas do meu coração. Mas não havia como retroceder; voltar atrás não era uma opção. Os dias de férias estavam contados e, no rigor da pontualidade japonesa, não havia espaço para hesitação. Então, retomei minha determinação. Precisava cumprir o plano. Eu havia selado um voto diante de todos e de mim mesmo.
No fim, a lealdade mais solicitada é aquela que convida a nós mesmos. Você a tem honrado?
Ao ingressar na autoestrada, um mundo em movimento me absorveu. Os carros passavam rapidamente, e a presença dos imponentes caminhões era intensa. Meu trajeto seguia pelo acostamento, e minha pedalada se mantinha constante. A cada moto que buzinava, como se quisesse me incentivar, eu sentia minha determinação se reafirmar. Nas minhas costas, a palavra “BRASIL”, estampada na camiseta, parecia pesar mais do que um nome de país – era uma identidade em movimento.
Eu, um ponto solitário na vastidão da estrada, poderia sentir a solidão de estar fisicamente afastado, mas será que ela se mede apenas pela ausência de pessoas? Ou talvez, a verdadeira solidão se encontre na conexão – ou na falta dela – com o caminho que escolhemos trilhar?
Essa reflexão se intensificou quando, então, veio um teste angustiante: um túnel estreito, longo e com pouca iluminação surgiu diante de mim.
As paredes pareciam vibrar com o barulho ensurdecedor dos caminhões. O ar, pesado pela fumaça dos escapamentos, me fazia sentir o peito apertado, acompanhado pela pressão da minha mente. O medo tentou me dominar, mas percebi algo essencial: havia uma diferença entre sentir medo e sentir receio. O medo paralisa, congela a ação. O receio, por outro lado, alerta, desperta, nos faz reconhecer a situação sem nos impedir de seguir. Meus pensamentos oscilavam entre o medo e a necessidade de seguir em frente.
Era uma travessia simbólica: não bastava a força das pernas, era preciso vencer também a inquietação interna, aquela voz que trazia dúvidas naquele silêncio opressor do aço e do asfalto. Então, finalmente, um feixe de luz rompeu a penumbra e aquela famosa frase “Uma luz no fim do túnel” nunca fez tanto sentido para mim. Segui pedalando, focado em um único objetivo: alcançar a luz no fim do túnel, que estava próxima. Quantas vezes, na vida, nos encontramos assim? Cercados pelo barulho externo e pela pressão interna, buscando desesperadamente um feixe de luz que nos guie para fora da escuridão?
A questão era atravessar aquele túnel, mas, sobretudo, compreender que, por mais longa que pareça a travessia, sempre existe uma saída. Talvez a verdadeira trajetória vá além de simplesmente chegar e consista no ato de vestir-se de coragem e seguir em frente, mesmo quando tudo ao redor parece querer nos deter.
O ar fresco me alcançou antes mesmo de eu ver o céu aberto novamente. Respirei fundo, aliviado por ter superado o longo túnel, sentindo que me transformaria a cada próximo quilômetro. E assim, com a estrada ainda se desenrolando à minha frente, eu seguia.
Mal sabia que, para além das paisagens e desafios físicos, um encontro inesperado em “Sadogashima” (Ilha de Sado) me faria repensar tudo o que eu sabia a respeito dos laços que nos conectam através do tempo. Laços que se revelam quando cruzamos a linha invisível entre o passado e o presente.
Continua na parte 2: A Senhora de “Sadogashima”.

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Comunicado neonews
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Esta é uma obra editada sob aspectos do cotidiano, retratando questões comuns do nosso dia a dia. A crônica não tem como objetivo trazer verdades absolutas, e sim reflexões para nossas questões humanas.